Sabia da viatura. Sabia exatamente quem estava dentro dela.
-Essa patota é impressionante. Conseguem ser as pessoas mais insatisfeitas da terra.
-É isso ai né cara?! É o fluxo.
Fica sorrindo o Monarco. Ele só trazia o Monarco, não sabia bem porque. Mas aquele rola de pano imprestável trazia sorte. De alguma forma estranha.
-Monarco tu fica ai e se liga. Se eles me pegarem mesmo com a boca na botija, tu vai direto lá e manda um advogado pra DD. Teu papel hoje é livrar minha cara. Só!
-Ta certo. Então se for cana dura, aciono o doutor e posso ir pra casa.
-É né Monarco?! Tu serve pra mais alguma coisa?
Monarco atravessou a rua e ficou na banca de jornal. Como que lendo, mas tava de olho na patrulha.
Saiu do trabalho e foi direto pra reunião. Coisa burocrática entre brothers. Mas como previsto teria aquela noite livre.
Ah! Mas seria dedicada. Foi caminhando devagar, curtiu cada paisagem, ela ficou de ligar e dizer algo, então vai rolar.
Ele sempre mantem a esperança de vê-la. Em cada esquina que ele passa e em cada carro que cruza por ele.
Sobe na calçada, famílias no lado de fora, sabia da modéstia de sua casa, assim como sabia da modéstia do seu bairro, mas a beleza estava justamente nisso. Em quantos bairros da cidade se pode dar boa noite aos vizinhos
de noitinha?!
Era a casinha branca, do pé de Jambo na frente, ele quis varrer a calçada, afinal de contas ela podia aparecer a qualquer momento e ele queria que ela visse sua casa limpa. Mas resolveu se concentrar em fazer um jantar gostoso pra dois.
Arrumou de leve os lençóis da cama e tirou tudo de cima, tirou a roupa e banhou-se demoradamente. Um calor divino estava fazendo. Abriu o e-mail leu apenas o que importava. Ficou apreensivo, mas ele se lembrou do olhar e das palavras e não duvidou. Parou pra refletir e aproveitou pra começar a fazer o jantar.
Se ela já tivesse aqui poderia ajudar. Ele não levou muito jeito, mas desenrolou.
Alimenta a fome, mas não sacia.
Relê e pensa, morre de alegria.
Responde e se contagia,
Haveria muita coisa pra conversar naquele dia.
Esperou, até telefonou. Escutou o som de um violão. Bateu o sono e ela não ligou.
Apaga as luzes, verifica a válvula de segurança do bojão.
Liga o ventilador, pões o celular pra carregar, mas não deixa no silencioso.
Deitou a cabeça em um dos travesseiros e olhando para o outro suspirou e pensou:
Ele não era tão bom naquele serviço. Mas tinha que fazer né?!
Ficou por ali, tentou até disfarçar. Pôs uma camisa de camelô, daquelas que bricam com o "falsiê". "Bandidas"!
Pediu uma cerveja, leu os classificados. Deitou-se numa rede.
Mas no litoral sul Brother?!
Aquele serviço era o foda. Aquela marmanjada em Tabatinga. Porque não o Miltinho?! Mas ele tinha um relatório: "num shei u qüê, num shei u qüê lá, é purqüe... é purqüe..."
Beberam, fumaram, cataram; nada demais. Foi bom mesmo quando tocou Chico Buarque. Ele começou a se lembrar de tanta coisa... quase dança.
Pediram a conta e foram numa fonte que havia ali perto.
"Ai é foda! É o tipo de coisa que não da pra disfarçar. Se eu entro ali, ou eles pensam que vou tarar as meninas, ou eles sacam qualé. Vou ficar aqui esperenado. Agora eles são cinco, mas todos dentro do carro são um alvo só. E nesse tipo de serviço, ai sim, eum me garanto!"
Dentro de cada um tem um monstro escondido. Na verdade ele não está escondido, sabe aquele momento em que você toma uma atitude que normalmente você não tomaria? Pois é, é quando o monstro é maior que você.
Essa faceta, pode ser muito destrutiva, mas sabendo lidar, controlar e canalizar pode se tornar algo muito produtivo, algo que tornará você mais forte. Algo que pode te levantar de uma forma que na sua pequenez você não poderia.
Tenho me deparado com meu monstro nos ultimos dias.
Ele tem gritado coisas no meu ouvido, que me inquientam e que me magoam, que me fazem questionar quem sou. Porém, prestando atenção, o meu monstro as vezes está certo.
Existe seguraça ma vida? Existe certeza? Existe futuro determinado?
Então que tal, de repente, assim, uma unica vez, muito ponderadamente, que tal prestar atenção ao que ele está gritando?
E se eu cair de cara no mundo mesmo? Se eu resolver viver a vida no máxio da minha capacidade, como se hoje não houvesse amanhã, e o amnhã não houvesse depois?!
É melhor se arrepender de não ter tentado, ou de ter tentado e não ter dado certo?
Até que enfim acabou a universidade. Defendi minha Monografia; nota 8.
Não tem problema, sempre fui um aluno nota 8!
Agora é ver o que vai acontecer.
PAssei muito tempo pensando como seria o fim disso, e agora que acabou penso que perdi tempo prevendo, porque o que eu queria ja está acontecendo. E foi natural.
Escrevo na Internet, trabalho com rock, ainda não ganho por isso, mas em breve vou ganhar.
Não que eu seja convencido, mas é que é o natural.
O fruto de quem trabalha muito em algo, é conseguir viver disso.